Nathália Carmem

Basicamente, o que se ouve muito por aí é aquela velha frase “O homem pensa com o corpo e a mulher, com o coração.” É claro que há muita verdade nisso, o homem, de maneira geral, tende a ser mais frio, calculista; geralmente não suporta a idéia de ter que se prender a alguém ou a um relacionamento que dure mais de uma noite, tenta não se envolver emocionalmente e, quando se envolve, a idéia de demonstrar amor ou afeto em público nem passa pela cabeça. Os homens têm pavor de sentimentalismo, sensibilidade, fraqueza.
Parece que todo homem cresce com aquele pensamento de que têm que ser fortão e durão e que nada, nem ninguém, o abala. Pobres coitados! Um dia eles descobrem que são seres humanos e que também são vulneráveis... Nós, mulheres, somos pura emoção. Passamos a vida inteira esperando o príncipe encantado, o homem perfeito. Reclamamos muito, é verdade. Mas é que uma noite apenas é pouco para nós, o que nós queremos mesmo é um amor pra vida toda, um homem pra casar. Não dá pra se satisfazer com qualquer coisa, né? Além do mais, reclamar é coisa de mulher mesmo, temos comprovadamente um tendência maior que a dos homens para as coisas complexas (será que não é porque somos mais complexas?). A mulher é, geralmente, mais sentimental, e não tem vergonha disso.
Entretanto, a diferença gritante entre homens e mulheres não pode ser resumida com a frase citada no primeiro parágrafo. Há muitos outros aspectos a serem abordados que vão além das diferenças emocionais. Quanto à intelectualidade, por exemplo, muitos falam que as mulheres se expressam melhor, ou seja, têm mais habilidade com as palavras, enquanto que os homens são melhores no raciocínio matemático. Bem, se atentarmos para as estatísticas, veremos que é exatamente isso que acontece. Há uma diferença sutil entre essas médias, mas é um fato.
Quando me perguntam quem eu acho mais inteligente, na hora eu respondo: “A mulher, é claro.”. Mas é lógico que eu não sei, falo isso porque sou mulher (e, se a modéstia me permite, me considero muito inteligente), mas isso não vem ao caso. Existem muitos homens burros, e muitas mulheres burras também. Assim como existem muitos homens que lidam muito bem com as palavras, e muitas mulheres que dominam a matemática perfeitamente. Não há um sexo superior ao outro. Se admitirmos o contrário, teríamos que admitir que há pessoas superiores às outras, e isso seria discriminação.
Machismo e feminismo são coisas que devem ser abolidas em todos nós. Veja bem, eu não me incluí apenas para fazer número. Às vezes, eu também me pego “puxando a sardinha pro meu lado”. Mas isso não é bacana. Cada um de nós deve reconhecer o valor do outro.
Os homens recebem, em média, 75% a mais do que as mulheres, desempenhando as mesmíssimas funções, mas as mulheres estão cada vez mais consolidadas no mercado de trabalho. Apesar disso, ainda é grande o número de homens que, por causa de idéias preconceituosas, se recusam a serem liderados por mulheres.
As mulheres têm um dia internacional que, à propósito, é dia 8 de março. Parabéns a todas nós! Os homens não têm isso. Graças a Deus, vivemos em um país que, cada vez mais, cuida de suas mulheres. Tudo bem que a violência doméstica ainda é um grande problema aqui, mas pelo menos não somos trocadas por camelos nem temos que casar com árvores. Já pensou? Ok, cultura é cultura. Não vou aprofundar isso aqui. Mas que é, no mínimo, assustador, é!
Enfim, homens e mulheres foram feitos para se completar. Essa competitividade desnecessária só gera mais preconceito e discriminação. Cada um tem seus pontos fortes e pontos fracos, mas um não vive sem o outro. Pra que brigar quando podemos simplesmente viver harmonicamente e em paz? Essa guerra toda não faz sentido algum. Apesar das diferenças, somos todos iguais.


Nathália Carmem
Não posso dizer exatamente desde quando a filosofia me fascina, mas posso dizer e, com muita certeza, de que é uma das minhas áreas do conhecimento favoritas. É claro que isso depende muito de quem você costuma ler, por que tem alguns filósofos que, mesmo para mim, são uma chatice. Enfim, isso acontece o tempo todo. Às vezes, você adora literatura, mas não consegue ler nem duas páginas de livros considerados de valor altamente significativos. O fato é que a filosofia é muito mais que uma obra ou outra, um devaneio ou outro. A filosofia é conquistadora, quando você entende e reconhece o valor que ela possui.
Muitas pessoas, conscientemente ou não, diante de todas as modernidades e praticidades dos tempos atuais, tendem a duvidar que a Filosofia valha mais que controvérsias sobre temas impossíveis e inalcançáveis e pensamentos quase que incompreensíveis. Esta visão, totalmente desprestigiada, resulta da falsa idéia de que a Filosofia serve para alcançar uma verdade absoluta, ou alguma resposta absolutamente verdadeira. Como se alguém, nesse mundo, fosse capaz de tal proeza.
O valor da filosofia está na mente de quem a defere. Aqueles que lhe são indiferentes, só poderão ver esse valor na vida daqueles que a reconhecem. Os indiferentes acham o estudo da filosofia “uma perda de tempo”. São pessoas que se enganam todos os dias, achando que a vida corriqueira e prática e os bens materiais são muito mais importantes que o bem da mente. São pessoas que acham que pensam por si mesmas, mas na verdade só pensam aquilo que os outros pensam ou querem que pensem. São pessoas que alimentam o corpo, mas não a alma, nem a cabeça. “Adotar uma filosofia de vida”, como muitos dizem por aí, não é apenas pensar de um jeito e achar que só o seu jeito de pensar é o certo. Viver filosoficamente é pensar na vida como algo que está além da nossa compreensão, mas que nem por isso devemos nos resignar com as respostas que nos são dadas, e aceitá-las simplesmente. Viver filosoficamente é entender que o mundo muda a todo segundo, e que você tem que saber lidar com isso. Viver é pensar, filosofar. Filosofia é vida. É sensibilidade. E viver não pode ser perda de tempo para ninguém.
Eu não sou filósofa, e sinceramente não pretendo ser, mas me orgulho em dizer que faço filosofia todos os dias. Faço porque aspiro conhecimento. Tenho convicções, preconceitos e crenças como todos nós, seres humanos, temos. Mas isso não me impede de maneira alguma de mudar de opinião, ou de reconhecer a minha dependência de respostas, a minha necessidade de entender até o que é impossível de se entender. Sempre que preciso, é bom fazer um auto-exame dos nossos valores, modos de pensar e etc. São essas coisas que fazem você ser quem realmente é, e não o que você tem ou que você veste ou qualquer coisa assim, mais superficial. E se você não pensa nada, você não é nada, acaba sendo só mais um no meio da multidão. E se você pensa sempre a mesma coisa, acaba ficando no passado, pois o futuro não é dos radicais.
As pessoas reclamam que a filosofia é complicada, vaga e inútil. Já ouvi até dizerem que “filosofia é coisa pra rico”. Como se os pobres fossem seres não-pensantes. O que quase ninguém entende é que a filosofia é vaga porque, se assim não for, não será filosofia. Se você pensar em uma coisa e puder explicá-la e comprová-la, bem, essa coisa já não faz parte da filosofia. Nada que pode ser explicado faz parte da filosofia. Porque a filosofia é simplesmente o não saber, é a busca por uma razão que pode até ser entendida, mas nunca comprovada. A filosofia é a dúvida inerente a qualquer pessoa.
Eu entendo que a filosofia valha para manter vivos os pontos de interrogação que trazemos conosco desde quando começamos a pensar. Esse poder de especulação vem sendo deixado de lado desde sempre. Ao longo da história, sempre teve aquele indivíduo que se deixa contaminar e se importar apenas com aquelas questões que podem ser comprovadas. Parece que esse tipo de gente sabe de tudo, não é? E o pior é que essas pessoas estão, cada vez mais, em número maior na sociedade. Poucos são os que se mostram interessados em especular, em buscar, divagar, estudar as possíveis respostas. Ou até, as impossíveis. É uma pena. Se todo mundo ficar, de repente, tão dogmático, ou que será de nós, amantes da filosofia, adoradores da dúvida?
Nathália Carmem
Quem, às vezes, não gostaria de fugir pra uma cidadezinha invisível no mapa? Quem, às vezes, não se sente órfão de mãe? Ou de pai? Quem não tem uma irmã-cópia? E quem não tem uma irmã copiada? Às vezes, somos tão egoístas que não percebemos a importância daquilo que é simples, mas fundamental a todos nós: Amor. Quem é que não tem algum tipo de revolta com a vida? Quem é que não fica pasmo quando, acostumado a saber de tudo, se vê diante do inexplicável? Como explicar que aquele lugar tão acolhedor para você, sirva como uma prisão pra alguém? Quem não tem um sonho que todos insistem em dizer que é impossível? Quem não tem Amor no coração? Ou uma dor de coração? Seja ela pelo motivo que for... Quem é que não teve, pelo menos uma vez, um anjo em sua vida? Quem é que, mesmo diante de todas as dificuldades, não se vê obrigado a seguir em frente? Se você se recusa a esquecer e seguir adiante, problema seu. Mas não me atire nenhuma pedra.
Nathália Carmem
Yngrid acabava de sair da aula de dança, estava ofegante, exausta. Chegara à escolinha de ballet às 08:00h e já passava das 14:00h. Acontece que era final de ano, e todo final de ano era igual: os ensaios eram mais demorados, intensos e puxados, por causa da tradicional apresentação de Natal que acontecia sempre, impreterivelmente, na frente da única igreja da pequeníssima cidade de Garrafão.
Sim, Garrafão está dentro daquele grupo de cidades quase invisíveis no mapa, como Tangamandápio, por exemplo. Lá, só há uma igreja, uma praça, um hospital, um colégio, uma sorveteria, um shopping, uma escola de dança... Ah, vem dizer que você não conhece um lugarzinho assim, onde tem de tudo, mas só uma coisa de cada tipo? E mesmo essa igreja, esse hospital, essa escola, são todos pequenos, porque a população é numerosamente pequena. Ou seja, de grande, Garrafão só tem o nome, e mesmo os mais antigos desconhecem a origem deste nome tão controverso.
Yngrid chegara a Garrafão aos 3 anos de idade. Seu pai, que era um cardiologista de prestígio, resolvera morar ali depois de ter perdido a esposa para uma doença rara, numa tentativa de se afastar de tudo o que lhe lembrasse e causasse nele a dor de sua perda. Era difícil, impossível até, para um cardiologista renomado como ele, uma pessoa cética, descrente de qualquer coisa que não fosse cientificamente explicável, aceitar o inexplicável. A mãe de Yngrid ora sofria dores no coração, ora desmaios freqüentes, ora febres altíssimas, e até queda de cabelo. Era um mistério. Até que um dia, quando Yngrid fez dois anos, tão misteriosamente quanto como apareceu, a doença foi-se embora, mas levou a mulher com ela. E foi assim e por isso que ele decidiu sair da cidade onde viviam, afastar-se até dos parentes e amigos mais próximos, morar numa cidadezinha escondida, fugir daquela vida, daqueles dias de luto, cruéis e impiedosos.

Fernanda acabava de sair da aula de francês. Ainda meio na dúvida acerca “des conjugàisons”, mas certa e satisfeita com sua boa pronúncia, conquistada sem muito sacrifício. Orgulhava-se de como era sabida, esperta. Poderia aprender o idioma que quisesse, sempre fora boa em línguas, e em gramática. Na próxima semana, chegaria a tão esperada resposta da universidade francesa, na qual ela pedira admissão para continuar seus estudos. A família de Fernanda, ao contrário da de Yngrid, não sofrera nenhuma perda recente, e morava em Garrafão porque não tinha outra opção. O pai de Fernanda não tinha nem o Ensino Médio completo e a pouca renda que tinham vinha do emprego de revendedora de cosméticos da mãe de Fernanda. A jovem, portanto, não apenas orgulhava-se do alto conhecimento cultural, como enchia seus pais de orgulho e admiração, e constantemente fazia a promessa de levá-los para Paris. Garrafão era pequena demais para os sonhos de Fernanda. Ela já estava até pensando em como faria se fosse admitida: leria a carta na frente da igreja, no dia da apresentação de Natal e espalharia a sua alegria para todos, numa data que era tão fraternalmente celebrada em Garrafão. Seria o seu “Adeus”.

É claro que as duas garotas se conheciam, mas não eram especialmente amigas, pois não freqüentavam as mesmas aulas, nem os mesmos lugares e nem tinham muitos amigos em comum. Fernanda sabia que Yngrid era a menina mais rica da cidade, e que fazia aulas de dança, piano, artes plásticas, mas era só. Ninguém sabia nada da família de Yngrid, nem do por quê de mudarem-se para Garrafão, até o dia em que as coisas começaram a mudar.

Fernanda foi deixar a irmã mais nova, Marina, no colégio. Marina, deixe-me falar pra você, era uma menininha muito esperta e adorava imitar a irmã. Mas Marina não era igual à Fernanda, logicamente. Na verdade, elas quase não tinham semelhança alguma a não ser alguns poucos traços, que passavam quase despercebidos diante de todas as diferenças. Diferenças que, aliás, não se limitavam à aparência tão-somente, mas também à personalidade. Enquanto Fernanda era madura, responsánvel, doce e sonhadora, Marina era mimada, inconseqüente, faceira e só obedecia à irmã. Todo dia de manhã era a maior guerra pra que Marina fosse ao colégio, e tinha dias em que só Fernanda a fazia ir. Este era um desses dias. E foi justamente por causa de Marina, que se atrasou tanto, que Fernanda pôde ver Yngrid ir ao chão sozinha, meio que desmaiada, apenas há alguns passos de onde estava.

Fernanda saiu correndo, pensando em chamar uma ambulância, mas quando ia se colocar ao lado da menina, viu que ela já estava se levantando, ainda meio zonza, mas aparentemente bem.
- Você ta melhor? – perguntou Fernanda.
- To. Acho que to. Obrigada.
- Tem certeza? Fiquei tão assustada. Você não quer sentar? Talvez você esteja cansada.
- É, pode ser. Qual seu nome?
- Fernanda. Meu Deus, por um instante esqueci! Você é a Yngrid, a filha do medico, ele tem que dar uma olhada em você, sei lá, as pessoas não desmaiam assim, de cansaço. Pelo menos, não normalmente. E você ainda ta tão abatida, acho que a gente deve...
- Não precisa. Eu estou bem, de verdade. Meu pai é um homem muito ocupado, não gosta que eu o perturbe com bobagens. Não posso nem falar de doença nenhuma em casa, desde que minha mãe morreu. Doença, pra ele, sé existe no hospital. Um desmaiozinho desses não é motivo tanto estardalhaço. É que final de ano a quantidade de ensaios triplicam, e eu não comi nada hoje de manhã...
- Sim, mas você ainda nem chegou ao balé! Como pode estar tão cansada?
- É um cansaço acumulado. Venho sentindo muito isso ultimamente.
- Humm. Pode ser que não seja nada mesmo. Mas, mesmo assim, você tem que comer! E descansar! Lembro que há uns dois anos atrás, você era mais, não sei bem, corada, eu acho. Agora você me parece meio pálida.
- Fernanda, eu acabei de passar mal. É claro que to pálida. Você só está impressionada, só isso.
- E, tem razão.

E as duas conversaram ali um bom tempo, mas depois tiveram que honrar seus compromissos, de maneira que acabaram não se encontrando mais ao longo do dia. Yngrid gostou de fazer uma nova amiga e Fernanda, apesar do susto, simpatizou muito com Yngrid também. É claro que esta era meio estranha, tinha dias em que ficava o tempo todo na rua, e tinha dias em que ninguém a via em canto algum. Nem para o balé ela ia com freqüência, estava cada vez mais magra, fraca e pálida.

O pai de Yngrid começava a se preocupar e sofria ao reconhecer na filha, os mesmos sintomas que culminaram na estranha doença de sua mulher. Parecia que ele teria que passar por tudo outra vez. Será que há justiça nesse mundo? E então, poucos dias antes da Apresentação, descobriu-se que Yngrid sofria de uma doença rara de coração, uma doença irreversível, desconhecida. Algo parecido com um sopro no coração, mas não exatamente isso. Era como se, uma parte do coração da garota fosse feita de dor, uma dor forte e impiedosa, absolutamente desconhecida da ciência, inexplicável para todos.

A essa altura, Fernanda, que havia sido aceita na universidade francesa, tentava de todas as maneiras possíveis ajudar a amiga. Em vão. O destino de Yngrid não estava nas mãos de ninguém, e já estava mais que sacramentado: ela se encontraria com a mãe em breve. Fernanda, porém, não tinha como saber disso, e escreveu para a amiga uma espécie de carta: rápida, curta, direta, que dizia o seguinte:

“Quando tudo parecer ruim, lembre-se de que as coisas poderiam estar piores, e aceite as coisas como estão. Não desafie Deus, nem o Destino. Você ainda pode viver muito, e vai viver muito, eu sei que vai. Aqui, ou na França, estarei sempre torcendo por você, para que você supere todas essas dificuldades. Mesmo que hoje você não esteja tão feliz, lembre-se do quanto você já foi feliz, e imagine o quanto será, se não desistir de tudo agora. É só isso que eu te peço: não desista de você. Tenha força pra viver, tenha força pra lutar por você. A sua vida é o bem mais precioso e exclusivo que você tem. Não a entregue de bandeja pra uma doença que só quer acabar com ela. Um abraço, Fernanda”


O que aconteceu foi que Yngrid nem chegou a dançar nem a ler as palavras da amiga. Quando o pai foi entregar para a filha, deparou-se com a inevitável fatalidade. Yngrid havia morrido. Morreu por causa de alguma espécie de sopro no coração. O desespero, o remorso e a culpa tomaram conta do médico. Sua dor era, agora mais do que nunca, arrebatadora. Era tão grande que não cabia dentro dele mesmo. Olhou para o papel e, num gesto impensado, amassou a carta. Sentiu-se bem fazendo aquilo, assim como sentiu-se bem quando se jogou no chão e chorou copiosamente. Ele tinha que pensar no enterro, em tirar a filha dali, mas não conseguia. Ele não se sentia capaz de se mover, se sentia paralisado, amassado como a folha de papel. Não demorou muito a pensar em terminar com tudo da maneira mais fácil: cortaria os pulsos, se envenenaria ou qualquer outra coisa assim. Na verdade, o que ele queria era punir-se, de maneira bem dolorosa. Quem sabe assim ele não teria o castigo que merecia, por não saber diagnosticar esposa e filha? Por deixar que as duas morressem...

De repente, quis abrir a carta. Num pensamento um tanto insano, imaginou que era aquele pedaço de papel, e resolveu abrir a carta, como se, lendo o que estava escrito no papel, pudesse ler dentro de si mesmo. Leu inúmeras vezes o pequeno parágrafo de Fernanda, até criar coragem de se levantar, retirar a filha dali e decidir que viveria não apenas por sua esposa e por Yngrid, como também por Fernanda e, principalmente, para contrariar um pouco a doença maldita que devastou os corações das duas pessoas que ele mais amava.

Fernanda, assim que soube, foi ao velório. Mas não se demorou ali, era triste demais. Injusto demais. Deu um abraço no médico, que a agradeceu pelas palavras de apoio que seriam para a filha, mas acabaram ajudando a ele. Desejou a ela uma boa vida no exterior, e que ela jamais esquecesse de Yngrid. Fernanda garantiu as duas coisas e pediu apenas uma: que ele fosse feliz sem culpa. “O Senhor não é culpado. Não havia nada que alguém pudesse fazer. Pensemos em Yngrid como um anjo. E alegremo-nos por este anjo pousar em nossas vidas.”
Nathália Carmem

Parece que todo ser humano foi feito exatamente do mesmo jeito, com a mesma mania: a de achar que nunca está bom o suficiente, que nunca se é bom o suficiente. E não somos mesmo. Mas aí eu pergunto: o suficiente para quem? Sim, por que estamos constantemente nos definindo, uns para os outros; adoramos dizer: “eu sou assim, assado, etc.”. Amamos os rótulos. Mas você já reparou o quanto é difícil ser fiel a você mesmo? Afinal, quem é você?
E a resposta pra essa pergunta é a mais traidora de todas as respostas. Simplesmente, meu amigo, porque você não sabe. Eu posso dizer que sou baixa, branca, cabelos castanhos, magra, estudante, professora, amiga de muitos, um saco pra alguns, possivelmente, boa filha (eu acho!), ótima irmã (tenho certeza!), excelente namorada (haha), e por aí vai, mas uma hora vem o golpe. Porque você não é só você, propriamente dito. Você é aquilo que você pensa, aquilo que você quer, aquilo que você tem, aquilo que você sente... você é aquele sonho, aquele desejo, aquela saudade, aquele abraço, aquele riso, aquele choro, uma legião de “aqueles e aquilos”. E isso tudo muda, você conquista algumas coisas, abre mão de outras, e vai sendo e deixando de ser, ao mesmo tempo. Às vezes eu sinto como se me desenhasse e ao mesmo tempo eu me apagasse. Não gosto de renunciar a nada. Ainda não aprendi a desistir de nenhum sonho meu, a desistir de nada daquilo que me faz ser quem sou. Mas eu sei que faço isso, quem dera eu pudesse ter tudo e não me trair jamais! Afinal, o que é “tudo”? Será que o “tudo” é suficiente pra nos satisfazer? Como eu só posso falar por mim, tenho quase certeza que mesmo no dia em que eu tiver tudo o que eu sempre quis, ainda assim não será o suficiente. Pra quem? Pra mim mesma. A verdade é que o nada é pouco, e o tudo não basta.
Nathália Carmem
Estive pensando a respeito da reforma ortográfica na língua portuguesa que começou a vigorar no dia 1º deste mês, reforma à qual ainda não consegui me adaptar. Tudo bem que não há mais nada a ser feito, e eu vou ter que reaprender a escrever (o que me deixa muito, mas muito inconformada), porque escrever errado por aí é vergonhoso; e tudo bem que não é uma mudança total, tampouco de todo má, haverá vantagens com essa unificação. Ou, pelo menos, a intenção é essa. Mas acredito que as desvantagens e os aborrecimentos serão maiores, e vou dizer por que.
Em primeiro lugar, eu tenho um verdadeiro amor pela língua portuguesa, e me gabo de saber escrever bem (gramaticalmente falando), principalmente num país como o nosso, onde a leitura e a escrita são hábitos de poucos. Saber onde colocar trema, acentos, hífens sempre foi uma grande qualidade minha, graças a Deus. E agora, como já disse no parágrafo anterior, vou ter que aprender tudo isso de novo, ou grande parte, enfim, um aborrecimento desnecessário.
Uma outra conseqüência, ou melhor, consequencia é termos que nos acostumar com a quantidade de “us” que ficarão sem trema. Chega a ser ridículo: o “quen” de conseQUENcia ser escrito do mesmo jeito que o “quen” de QUENte. Ora, se há dois pontinhos em cima do “u”, com certeza eles não estão ali por puro enfeite, eles TÊM uma função. Ou, por acaso, você acha que não há diferença na pronúncia de ”consequencia” para “quente”? Ai, língua portuguesa... onde é que você vai parar?
Palavras como ideia, assembleia, heroica, perdem o acento agudo, o que, é lógico, marcava a pronúncia dessas palavras. É lógico que ninguém vai falar diferente, mas que fica uma bagunça só, isso fica. Eu não entendo como isso pode simplificar a nossa língua. Mudar, unificar, eu até concordo. Mas facilitar? Não, a não ser que seja para aquele grupo de pessoas que já não sabia acentuar, agora então vai ser uma maravilha. Aliás, tem uma outra coisa que muita gente não sabia (sim, porque agora não adianta mais saber): o acento que diferenciava o “para” do verbo “parar”, que era o acento agundo na penúltima sílaba, do “para” preposição. Novamente teremos duas palavras escritas de maneira idêntica, com significados totalmente diferentes.
Mas, como a questão é irrecorrível, não adianta reclamar. O melhor que se tem a fazer é pensar nas vantagens (se é que elas virão), e são elas: uma maior troca literária entre os países lusófonos, que possibilitará um intercâmbio cultural também maior, além da unificação propriamente dita na escrita.
Não sei se essas mudanças incorporadas à ortografia, que não são poucas, eu citei só as mais, digamos, esquisitas, serão benéficas ao nosso idioma, porém, é assim que vai ser daqui pra frente. O nosso português, coitado, está sofrendo. E eu também. Preciso escrever as novas regras em algum lugar e memorizá-las o quanto antes. Escrever errado por aí não dá né?
Nathália Carmem
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades...
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades...
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto...
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía...
(Luís Vaz de Camões)